A Tempestade de Citocinas: Por que alguns casos de COVID-19 são mais severos que outros?
Um dos quesitos ainda não bem compreendidos sobre a COVID-19, a doença causada pelo Coronavírus, é o porquê de algumas pessoas desenvolvem quadros graves e outras não. Claramente, o conhecimento convencional baseado na imunidade geral dos pacientes infectados não pode explicar esse amplo espectro na apresentação da doença1.
Sabe-se que as diferenças genéticas entre indivíduos contribuem para variações na resposta imune a patógenos. No entanto, quando uma resposta imune protetora é prejudicada, o vírus se propaga e ocorre uma destruição massiva dos tecidos afetados, especialmente em órgãos com alta expressão de ACE2 (Enzima conversora de angiotensina 2), receptor responsável pela entrada no vírus na célula, por meio da interação com a espícula viral. As células danificadas induzem inflamação nos pulmões, que é amplamente mediada por macrófagos e granulócitos pró-inflamatórios. A inflamação pulmonar é a principal causa de distúrbios respiratórios com risco à vida no estágio grave2. Portanto, apenas uma “boa saúde” não impede que pacientes avancem para o estágio grave devido ao dano pulmonar. Desta forma, é necessário suprimir a inflamação e controlar os sintomas.
A insuficiência respiratória causada pela síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) é a principal causa de mortalidade pela COVID-19. Contudo, é a resposta imune exacerbada do organismo envolvendo uma produção massiva de citocinas que conduz a à uma forma severa da doença, que caracteriza uma Síndrome de Liberação de Citocinas (SLC, ou tempestade de citocina), que parece afetar pacientes com condições severas causando um quadro de hiperinflamação3. Em adultos, é comumente induzida por infecções virais e ocorre em 3-4% dos casos de sepse4.
A SLC parece afetar pacientes com condições severas, e observa-se também um aumento de infiltrado de neutrófilos5, evidenciados pela formação de NETs (do inglês, Neutrophil Extracelular Traps), sendo possíveis causadores de dano pulmonar, atualmente um dos grandes obstáculos à recuperação desses pacientes graves, de modo que em quadros de hiperinflamação, a imunossupressão é um procedimento que tende a ser benéfico. A re-análise dos dados de ensaio clínico randomizado fase 3 do bloqueio de IL-1 (anakinra) em sepsis, mostrou uma sobrevivência significativa em pacientes com hiperinflamação, sem aumento de efeitos adversos6. Um estudo controlado multicêntrico e randomizado de tocilizumabe (bloqueador do receptor de IL-6, licenciado para síndrome de liberação de citocinas) foi aprovado em pacientes com COVID-19 e elevada produção de IL-6 (ChiCTR2000029765)7.
Contudo, suprimir a imunidade durante uma infecção viral pode favorecer infecções secundárias, mas o tratamento da síndrome de liberação de citocinas pode ser uma resposta imediata na redução da mortalidade para alguns casos de COVID-19. Assim, mais pesquisas sobre terapias de imunossupressão, como tratamento antivirais e vacinas, serão essenciais para um controle de longo prazo da doença.
Referências
- Yufang Shi, Ying Wang, Changshun Shao, Jianan Huang, Jianhe Gan, Xiaoping Huang, Enrico Bucci, Mauro Piacentini, Giuseppe Ippolito and Gerry Melino. COVID-19 infection: the perspectives on immune responses. Cell Death Differ. 2020 Mar 23 : 1–4.
- Xu Z, Shi L, Wang Y, Zhang J, Huang L, Zhang C, et al. Pathological findings of COVID-19 associated with acute respiratory distress syndrome. The Lancet Respiratory medicine. 2020.
- Ramos-Casals M, Brito-Zeron P, Lopez-Guillermo A, Khamashta MA, Bosch X. Adult haemophagocytic syndrome. Lancet. 2014; 383: 1503-1516
- Karakike E, Giamarellos-Bourboulis EJ. Macrophage activation-like syndrome: a distinct entity leading to early death in sepsis. Front Immunol. 2019; 10: 55
- Barnes BJ, Adrover JM, Baxter-Stoltzfus A, Borczuk A, Cools-Lartigue J, Crawford JM, Daßler-Plenker J, Guerci P, Huynh C, Knight JS, Loda M, Looney MR, McAllister F, Rayes R, Renaud S, Rousseau S, Salvatore S, Schwartz RE, Spicer JD, Yost CC, Weber A, Zuo Y, Egeblad M.Targeting potential drivers of COVID-19: Neutrophil extracellular traps. J Exp Med. 2020 Jun 1;217(6).
- Shakoory B, Carcillo JA, Chatham WW, et al. Interleukin-1 receptor blockade is associated with reduced mortality in sepsis patients with features of macrophage activation syndrome: reanalysis of a prior phase iii trial. Crit Care Med. 2016; 44: 275-281.
- Chinese Clinical Trial Registry. A multicenter, randomized controlled trial for the efficacy and safety of tocilizumab in the treatment of new coronavirus pneumonia (COVID-19). http://www.chictr.org.cn/showprojen.aspx?proj=49409 Data de acesso: 20 de abril de 2020
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